Em memória de meu pai...
Não ouso entrar na privacidade da morte mas nos jardins onde os seres adormecem imóveis e inabaláveis em sua leal imitação de estátuas. Busco uma fria linguagem de sombras para dizer a pedra onde os mortos amados aparecem, como se apenas dormissem num caixão o mesmo sono dos vivos.
Na notícia
que estoura como castanha bruscamente na perplexidade da carne em brasa,
sabemos que os mortos amados se convertem em ilhas que se afastam e arrefecem extraordinariamente.
Suas bocas são um lugar ermo e glacial onde talvez floresçam ainda margaridas
em pútrida espuma verde.
Nos dias do amor concreto éreis criaturas como árvores
de grossa seiva vermelha, vivas orquídeas, gerbérias enraizadas, antúrias, lírios
e crisântemos de dócil impermanência palpável. Na noite dos mortos amados que
doem sois as palavras longas e lisas que se perdem por entre as coroas de palma
e folhagem e a saudade perpétua da longevidade do amor.
Nenhuma vida
permanecerá além do seu instante lacónico, ó cavalos de vento
que se
propaga
para
acontecer na estupefacção da sua semelhança com deus.
No íntimo recesso das pálpebras inchadas de perda e pranto, vossa pele cristalizou em marfim amarelo. Vossos
tendões são rígidos como as pegas do caixão onde jazeis convertidos na certidão
única da eternidade. Vão os dedos e tocam-vos como se fosseis ainda tangíveis e
aromáticos, mas a noite transforma a natureza que avança em direcção ao
infinito e a flor-cadáver é a maior e a mais fétida flor do universo.
Há que
cobrir-vos o rosto, lastimar a terra e seus despojos inelutáveis, olhar
demoradamente para o céu. O que aparece na crepitação do firmamento não
revela o lugar que apavora quando a vida
parece necessária.
O sangue
que gela nas artérias é a coisa triunfante dos mortos amados. Jangada
vertical onde a vida se desprende de nós aos bocados e atravessa o lato sentido
da impermanência.
Em torno da
vossa cabeça de mortos amados há ainda um velado diadema. Nas pálpebras seladas e na pontualidade do silêncio é preciso concertar os
mortos. Devolvê-los à ousada esperança de um ameno desenlace: sois
gloriosamente além da morte porque já não tendes medo de morrer. Abismada no
que sempre será prematuro, moída na úlcera do intemporal, apenas vos cubro o
rosto e despeço-me, ó mortos amados.
Vamos dizer
que sois, em vossa sujeição à morte convicta, a cicatriz das estrelas como um
botão de rosa que se estende na razão da verdade. Vamos dizer que sois
transfigurados nos ossos das grandes montanhas, meus próprios ossos caídos do
céu. Dou-vos
a minha
pequena mão de nasciturno
e sigo-vos
sem fala até à sepultura,
como uma
pequena folha ao vento.
Texto: Maria Dulce Guerreiro in "Assombrosamente, os Bichos." / Distinguido na I Edição do Prémio de Poesia Manuel Alegre
Texto: Maria Dulce Guerreiro in "Assombrosamente, os Bichos." / Distinguido na I Edição do Prémio de Poesia Manuel Alegre





















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