François Truffaut - vale a pena lembrar...

De toda a sua cinematografia, L'ENFANT SAUVAGE foi o filme que me seguiu de perto até ao presente, o que me deixou na memória registos indeléveis de pormenores.
A descrição dum processo educativo invulgar. Um projecto bastante intimista do cineasta.
1798
Nu, arisco e sem saber falar, um jovem é encontrado assim na floresta, pelos residentes da aldeia.
É recolhido pelo Dr. Itard, que lhe atribui o nome de Victor, consagrando-se inteiramente à sua educação.
Sociabilizar o jovem revela-se uma missão árdua e delicada, marcada por muitos momentos de satisfação...
e por muitos outros de frustração....
Construída em sucessão de capítulos (“Victor na floresta”, “Victor no instituto de surdos mudos”) a narrativa é ritmada pela voz off do médico a anotar as suas reflexões e conclusões, coisa muito do agrado dos doutos mas que se revela pesada em fracasso na relação com a criança.
O Selvagem de Aveyron é objeto de mal-entendidos, como não podia deixar de sê-lo uma criança criada por sua conta e risco na floresta hostil, posteriormente recolhida por adultos que fazem dele praticamente um fenómeno de feira. Pensou-se que teria sido abandonado por ser idiota, mas depressa vem a servir de protótipo da criança mentalmente retardada justamente devido ao seu abandono. No parecer de alguns, Victor é um incompreendido, cujas falhas e desvios são agravados pela carência afetiva e estigmatizados pelo olhar alheio.
Esta inversão da causalidade é revelada na primeira meia hora do filme, mostrando desde logo o Dr. Itard na pele do investigador perspicaz, que não tarda em descobrir o mistério deste “animal humano” a quem passados uns meses ele poderá dizer: “Mesmo não sendo ainda propriamente um homem, já não és um selvagem.”
A obra exibe uma lenta mas imparável metamorfose. Truffaut é excelente a mostrar a relação, pedagógica, que rapidamente se tornará também afectiva, desenvolvida entre Victor e o seu educador, através dum jogo de coerção, imitação e interacção no âmago do processo de aprendizagem. A cena em que Vítor se revolta, quando é punido injustamente, é também, aqui, emblemática.; a “ordem moral”, estando interiorizada pela criança, apontaria para que esta é uma ordem intrínseca ao ser humano.
O próprio Truffaut encarna a personagem do Dr Itard, criando assim um “à beira do abismo” fascinante entre o papel de educador e o de se dirigir a si mesmo como actor.
Jean-Pierre Cargol assume com distinção a personagem de "l´enfant sauvage".
François Truffaut...vale a pena lembrar!
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