" (...) ressuscitar, se faz história: criar, se faz poesia." Victor Hugo
Desde a não existência do tempo, até ao tempo absoluto.
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"O que é o tempo? Eu sei o que é o tempo, se alguém me perguntar, não consigo explicar." Sto Agostinho |
Texto: Maria Dulce Guerreiro
in "Hortelã Mastigada no Frio" / Colecção de textos poéticos
O tempo voa sempre para o presente.
Eis o presente.
Há no ar uma espécie de rumor que muda a sua rota com o vento e eleva o batimento dos pulsos que hasteiam a hora das aves.. É talvez também criação do tempo que olha para o céu com as veias corredias no sistema vascular dos astros. A luz que chega da lua e vem para mostrar a gravidade da terra, viaja pelo espaço, antiga e cataclísmica, não saberemos se é duração, uma qualquer oportunidade deve ser agarrada como agarraríamos
a eternidade.
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Imagem: Dariusz Climczac (Journey) O mundo em nano segundos |
da casa
sem qualquer utilidade senão a de brutalmente ter aniquilado milhares de possibilidades.
Mas se um instante cessa, outro começa. Na impercetível suspensão.entre uma e outra coisa somos então a imagem, sem respiração, parada. Quando as criaturas saem do torpor das suas inquietantes dimensões, as cinzas do passado voam para o infinito espaço da atenção em movimento, tudo torna à realidade para que o presente volte à casa com sua esperança de amar os dias em que tudo se mistifica e funde: alegria e dor, amor e ódio, coragem e cobardia, aves que trazem dos campos a liturgia da tarde e cães que atacam os caminhantes com seu uivo de medo ou nostalgia .
Passam horas e horas pelos minúsculos cristais de quartzo, como diminutos grãos de areia horas vibram nos pulsos, desta diminuta vibração se fazem cicatrizes pendulares, dias
completos.
Cada passagem do pêndulo, cada estreito caminho de areia, marcam uma noticia breve ou insuportavelmente longa. O coração vem com seus batimentos regulares representar o mundo que habita para além do relógio, esse mundo que gira à velocidade do homem livre ou do homem fechado na sua amargura. Gota a gota, um só instante basta, para largar da mão a sanidade e enlouquecer.
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Imagem: Juan Miró |
Se o meio dia desliza pelas planícies, pelos vales e montanhas, a terra enfrenta o sol de lés a lés, com a claridade que proíbe o medo. Onde quer que se encontre alguma sombra, aí, estará também a luz. e o que nela se organiza. As semanas, os meses, os anos, os séculos, os milénios, os dias tomam para si nomes de deuses, anjos e astros, em sete dias se criou o mundo, em menos se criaram os nomes das coisas, as quatro estações do ano, as quatro fases da lua, a costela de Adão, o seio de Eva, a maçã, o unicórnio.
Da condição humana sabe-se que tem seu calendário de palavras, sonho e vigília, dúvidas, fé, e a doce fantasia do amor.